Dizia se que o eclipse, era a união mais poderosa dos Deuses. O dia que os mundos se uniam, deixando de lado as diferenças. Era uma noite de comemoração, pois tudo ficaria bem e algo novo sugeria.
Homens tocavam tambores, fazendo as mulheres entrarem no ritmo da música. Dança! A dança nunca for a um meio de sedução ou de chamar atenção do mundo, muito menos dos homem. Dança era tudo para eles, não era apenas o balançar do corpo no vento, nunca foi sedução por parte das mulheres, mas sim uma forma de comunicar e de se expressar. Uma arte que só quem dança e entende a cultura, respeita.
Apesar de ser noite, estava iluminado pela fogueira feita pelo povo na aldeia e colorido pelas que roupas que eles usavam. Homens apenas de calças coloridas e mulheres de top e tanga colorida que acompanhavam as suas curvas.
Nessa noite, tão iluminada e comemorativa, nasceu uma menina que sentia mais que outros, que via mais do que devia e ouvia as cantigas do silêncio.
Nessa noite, uma mulher deu a Luz. Chamava-se Lussandra. Um senhora acima dos quarenta, tinha olhos negros, era mista, cabelos longos de “dreads”, muito meiga e casada com um senhor chamado Grião de cabelos brancos de tanto viver. Estava ela dando a luz pela décima segunda vez, torcendo para que finalmente tivesse um menino, visto que ela já tinha onze meninas.
—É uma linda menina— Disse a parteira, Faytana entregando o bebé à mãe. Decepcionados ficaram, Lussandra e o seu marido, quando viram uma menina nas mãos da parteira. A Kucaia estava ao lado da Lussandra, no quarto.
— De novo? — Reclamou Grião
Lussandra: — Uma filha é sempre bem vinda! — Disse a Lussandra triste porém emocionada. Ela acariciou a pequena e estranhou: —Mas o que é isto?
Era um bebé muito frágil, não parava de chorar e tinha marcas nas mãos. Ninguém entendia o aparecimento daquelas marcas nas palmas das mãos.
— Que marcas são estas nas mãos da minha pequena?
— Não deve ser bom sinal!— Kucaia com braços cruzados, irmã mais nova da Lussandra.
— Bem eu não sei explicar!— Faytana ficou surpresa ao ver.
— Talvez seja melhor chamar a senhora Jamaia.— A Kucaia sugeriu
O senhor Grião mandou uma das suas filhas chamar a senhora. Minutos depois a Jamaia estava la, uma mulher misteriosa, seus olhos azuis relevavam a experiencia de vida que ela teve.Uma feiticeira branca, cabelos longos de “dreads”.
— Jamaia, por favor veja a minha bebé! ?—Lussandra suplicou assustada.
Jamaia aproximou-se do bebé e viu as marcas nas palmas das mãos e sorriu.
— Olhos... ele e uma menina especial!
— Olhos!
— Sua pequena parece ter marcas de olhos nas mãos. Agora não está muito visível, mas com o tempo estarao mais visiveis.
Todos ficaram admirados, com o que a Jamaia havia dito. Nunca havia acontecido isso antes, nem na família e nem na ilha. Dizia-se que as recem nascidos especiais eram único. Especias designavam-se as pessoas com dons peculiares que outros chamavam de feiticeiros.
— E o que isso significa?— Grião perguntou, mas no fundo ele sabia a resposta, assim como todos que estavam casa sabiam.
— Possivelmente ela é uma de nós…Ela é minha!— Jamaia comentou sorrindo e entregou o bebe a Lussandra.
— Não é possível! Minha pequena não é feiticeira! — Lussandra suplicou que não fosse verdade, tendo a sua pequena nas suas mãos.
— Maldição! — Grião estranhou, sentindo uma repulsa pela própria filha.
— Talvez seja melhor entregar a senhora Jamaia para cuidar!— Kucaia seguriu.
— Não! Ela é minha filha. — Lussandra olhou para irmã não crendo na tamanha ousadia da mesma. Grião quis opinar, mas a Lussandra interferiu. — Não Grião! Ela é nossa filha, tal como todas as outras!
— Ela é menina e ainda por cima uma feiticeira!— Grião
Lussandra:— Não se sabe ainda, pode haver um engano
— É obvio que é uma feiticeira, alguma vez já viste uma bebê com marca de olhos na palma das mâos…
Lussandra se recusou a entregar a sua recém nascida a Jamaia, deixando a mesma partir.
Desde esse dia tudo mudou. O senhor Grião afastou-se de sua esposa, já não era o mesmo pai de sempre tornou-se um homem menos amigável e m*****o. Olhava para a sua filha recém nascida de forma desprezível, de tanto ver sua esposa segurando-a passou a ter desprezo por ela também. Outras suas filhas diziam que a bebé recém nascida era o motivo do mau comportamento do seu pai. Culpavam a pequena pela o afastamento da família. Inúmeras noite, Lussandra passou sozinha com a sua filha em mãos temendo destino da pequena que era rejeitada pela propria família. Lussandra amava sua filha recém nascida, tal como todas as outras. Preferia não ver o desprezo pela sua família, preferia fechar os olhos e abraçar bem forte na sua pequena menina., agindo normalmente, mesmo sabendo que um dia ela teria que se separar da sua pequena.
Baderinwa, foi o nome que Lussandra deu à sua pequena menina, quando estava com ela ao colo na varanda da sua casa. Ela estava sentada numa cadeira de baloiço, segurava fortemente a sua bebé, com ternura e lágrimas no rosto. Deu nome de uma das Deusas da sua aldeia. Baderinwa significa mulher de respeito e poderosa.
Numa linda noite Kucaia aproximou-se do Grião, levantou o seu vestido de algodão para que ele visse suas pernas. Foi nessa noite que aconteceu o que a Lussandra jamais esperava do seu esposo e foi desde ai em diante que o Grião esqueceu que tinha esposa e filhas.
Todos culpavam a pequena menina Baderinwa, pelos maus acontecimentos. Grião várias vezes ameaçou sua esposa dizendo-a que um dia a mandaria embora de sua casa.
Passaram-se quatro anos, quando ocorreu o eclipse. Todos se reuniram na noite. Fizeram uma chama e sentaram à volta da chama. Cantaram, dançaram, brincaram. Todas as vezes que havia essas cerimónias Baderinwa dançava, ela ouvia som das aves, das árvores e do mar.
Nessa altura Baderinwa tinha 4 aninhos, sempre alegre apesar do preconceito que sofria por ser diferente. As marcas nas palmas das mãos iam ficando cada vez mais visíveis, isso deixava a Lussandra com algum complexo de sua filha. Desde o nascimento da menina rara, tudo mudou na sua família, nunca mais foi igual. Os anos e anos passavam, enquanto Baderinwa via sua mãe sendo desprezada e agredida pelo seu pai. A Baderinwa não teve amor de ninguém para além de sua mãe e suas duas irmãs mais velhas, a Fanua e a Kilaila. As outras nove irmãs era mais distantes e grande parte ja eram mais crescidas e estavas casadas. Das nove apenas três ainda viviam com sua mãe, era a Maarifa,Fanua e Kilaila.
Maarifa tinha 15 anos. Fanua tinha 12 anos e a Kilaila dez anos. As tresde cabelos longos de “dreads”, ela tinham a atencão da sua mae, mas não mais que a Baderinwa. Lusaandra perdia um momento do seus dia trancando o cabelo da pequena mirabas.
A Baderinwa, apesar de ser ainda uma menina tinha um corpo demasiado desenvolvido para sua idade, o que chamava atenção, pra além de ser linda, seus cabelos trançados a deixavam mais charmosa. Muitos homens pensavam que Baderinwa já era uma menina crescida pronta para casar, Lussandra e Grião, tinham de afugentar sempre os pretendentes da Baderinwa. Fanua temia que nunca se casasse por causa da beleza da Baderinwa, que chamava atenção de qualquer rapaz na aldeia.
Lussandra nunca deixava Baderinwa ir ao mercado ou a lugares onde havia muita gente, pois temia a sua filha fosse assediada e vissem as marcas nas palmas das mãos. Por consequência disso, Baderinwa, passava a maior parte do tempo em casa ou brincando na varanda, muitas vezes sentia-se muito só. Ela olhava para as suas marcas nas mãos e não entendia o que era, não conseguia ver o porquê ela ser diferentes das irmãs. Em cada palma de sua mão tinha marca de um olho, parecia uma tatuagem feita. Uma noite, Lussandra viu a sua pequena se machucando com pedra, tentando a apagar as marcas das mãos.
— Badirinwa! — Lussandra impediu-a tirando a pedra das suas mãos.
— Quero que elas saiam— Baderinwa chorou ao pelas feriadas, mas que o mais a doia era fato de sentir diferente de todos. Ela desejava ser com as outras crianças da sua aldeia.
Lussandra tentou acalmar, dizendo que com o tempo as marcas iriam sumir, mentia mesmo sabendo que com as marcas eram cada vez mais visíveis. Talvez ela mentia porque no fundo ela acreditava e desejava que isso acontecesse.
*1 ano depois*
Um ano se passou, finalmente Maarifa conseguiu o que tanto queria, estar noiva, de um jovem que se chamava Lacaio. O Grião estava muito satisfeito, ofereceu cerca de quinze ovelhas a sua filha para começar sua vida depois do casamento. Lussandra chorou de alegria e felicidade, dizia que os Deuses haviam escutado os seus apelos. Na ilha Kaindra, mulheres se sorte se casavam e traziam alegria para a família.
Numa noite de lua nova, estavam todos sentados numa mesa rectangular. Grião e Lussandra ficavam nos cantos da mesa, kucaia sentava-se no lado esquerdo do Grião, Baderinwa no lado direito de sua mãe e outras irmãs por vezes intercalavam-se, mas a baderinwa estava sempre ao lado da sua mao e nunca do seu pai, a pequena temia o olhar obscuro do homem. Por vezes ela sentia o seu pai a desejava jogar-lhe no mar.
“ Minhas filhas, estou muito feliz. Maarifa vai casar com um homem brilhante, com futuro, que lhe dará uma boa vida. Filhas sigam o exemplo de vossa irmã ou casem-se com homem como vosso pai, que trabalha e faz de tudo para sustentar a família. O vosso pai é o exemplo de homem, que vocês devem ter”
Eram essas as palavras de Lussandra quando estava a mesa, ela conseguia fechar os olhos e tentar passar uma boa imagem do seu marido apesar dos defeitos que ele tinha, apesar das traicoes, algo que Baderinwa não concordou. Talvez porque ela viu muitas vezes o seu pai com a sua tia, sozinhos no quarto, talvez porque já viu seu pai maltratando sua mã.
— Eu quero me casar logo!!! —Maarifa adolescente de dezasseis anos deseja construir uma família.
Lussandra: — Duas semanas passam rápido filha.
— És o nosso orgulho Marifa! Fanua e Kilalia sigam o mesmo exemplo. — Grião comentou.
— A Baderinwa também. — Lussandra sorriu olhando para a sua pequena e teve um sorriso de volta da mesma.
— Baderinwa, talvez tenha de ser eu a pagar o meu genro para se casar com ela! Quem vai querer uma mulher com defeitos
— Ela não tem defeitos Grião.— Lussandra o protestou
Grião bateu com a mao na mesa.
— Nunca me deste um filho homem, devias te considerar sortuda por ainda te aceitar como minha esposa.
— Te deu doze filhas lindas, papa. — Baderinwa encarou-o.
Grião pressionou a mao segurando um faca de mesa, encarando a sua filha com um olhar de morte.
— Tu manchas a nossa família, perdi a minha honra e o respeito dos meus vizinhos desde o dia que nasceste... — Grião apontou a faca para a pequena, dando a certeza que a Lussandra não estivesse no meio ele a mataria e teria a sua honra de volta.
— baderinwa, vamos brincar na areia...— Kilaila se levantou e pegou a Baderinwa pela mao a tirando a mesa, como forma de proteger a sua irma mais nova. Grião largou a faca na mesa e continuou a sua refeição.
— Ela é só uma menina, ela é tua filha...
— Ela nunca será minha filha, duvido que seja mesmo minha! — Grião olhou para a Lussandra. — Eu não tenho famíliares feiticeiros na família, nem os meus antepassados.
— Sabes que isso não tem haver com o sangue, mas sim com a vontade dos deuses...
— vamos falar de coisas boas, meu casamento. — Marifa comentou sorrindo, dizendo o que queria no dia do casamento. Falando do seu vestido e do dote, para o Lacaio ter a sua mão.
O apelo
Numa manhã de sol radiante, Lussandra e as suas duas filhas, Fanua e Kilaila estavam se preparando para irem até ao mercado, pois o Grião e os seus amigos iam se reunir novamente para por a conversa em dia. Grião sempre gostou de festas e obrigava a sua esposa a filhas a prepararem a ocasião.
Enquanto Lussandra estava na cozinha preparando a sacola para as compras, Baderinwa estava lavando a louça.
— Mãe posso ir ao mercado também?
— Não filha, sabes que não quero que vás a esses lugares! Também alguém tem que ficar em casa.
— Eu não quero ficar sozinha!
— Seu pai esta aqui e nós vamos até ao mercado, depois voltamos e estaremos todos juntos, eu, seu pai, sua tia Kucaia, suas irmãs e os amigos.
— O papa e tia Kucaia não gostam de mim.
— Gostam sim, eles só não sabem demonstrar
— Mas eu…
— Também não podemos demorar muito, o Lacaio também ira se juntar a nós! Temos que ter pronto antes dos amigos do papa chegarem.
Baderinwa pediu tanto a sua mãe para que fosse com elas, mas Lussandra recusou deixando em casa. A pequena ficou no quintal da casa, sentada na areia e começou a chorar, desenhando o rosto do seu pai na areia. A pequena sabia desenhar como ninguém, como passava maior parte do tempo sozinha acostumava-se com a solidão.
Sua mãe e suas irmãs não ligaram, pensavam que ela apenas estivesse chorando por birra, ignorando o apelo da pequena.
Maarifa já havia saído com as suas amigas da aldeia, m*l brincava com a Baderinwa, na verdade sentia o mesmo desprezo que o seu pai sentia.
Horas depois, Lussandra e suas filhas estavam a sair da feira de verduras que ficava um pouco distante de casa, se deparando com uma chuva forte pelo caminho. As três apressaram os passos, para chegar a casa o quanto antes.
— Vamos! Temos de ser rápidas, senão ainda ficamos doentes com a chuva!— Lussandra afirmou, segurando as sacolas.
— Não seria melhor adiar essa festa?— Kilaila teimou.
— Já não vamos à tempo, o Lacaio e os amigos do pai já devem ter chegado, estamos atrasadas. — Lussandra pegou a sua capulana e cobriu as suas filhas, deixando-as de mãos livres e ela propria segurando as sacolas.
— Vamos logo e ainda temos de preparar algo para comer!
— Eles devem estar mais interessados nas bebidas do que em comida, mãe…— Fanua riu-se enquanto corria da chuva ao lado da kilaila.
Quanto mais cedo chegassem, menos atrasariam para preparar as comidas, pois o Grião não ajudava em nada. Era tipo de homem que diziam que lugar da mulher e nas panelas. Depois de tanta chuva e tanto correrem, chegaram na aldeia, estando poucos metros da casa.
— Os amigos do pai, já chegaram! Consigo ver pela janela!— Fanua apontou com o dedo.
Kilaila: — Mãe quem é aquela?— Kilaila apontou o dedo, vendo uma menina de longe que por conta da chuva ela não conseguia reconhecer.
Lussandra ainda de longe reconheceu-a:
— Baderinwa, filha o que fazes fora de casa com essa chuva?
Baderinwa estava andando em direção a sua mãe ,de forma tão penosa, parecia estar cansada e coxeava, que acabou caindo no chão. Pressionou as mãos contra a areia e gritou chorando.
Sua mãe e suas irmãs se aproximaram. Lussandra aflita passou a mão no rosto de Baderinwa, não quis acreditar quando viu a roupa da sua pequena rasgada e sangue entre as suas pernas.
— Doi mama... Esta doendo— Baderinwa chorava nos bracos da sua mae.
— o que ela tem mae? — Kilaila não entendeu o que havia acontecido.
—Esperem aqui, fiquem com a vossa irma, não entrem na casa. — Lussandra se levantou e correu até a casa, pegou num machado que estava encostado num dos troncos no châo. Furiosa pôs se a correr e foi até a casa, ao entrar ela viu o Lacaio e os amigos do seu pai na sala, todos embriagados de tronco nu e ajeitando as suas calças. Viu o sangue da sua filha junto com semen no châo. Enxergou a crueldade que fora feita na sua ausencia.
— Minha filha... Voces magoaram a minha pequena! Ela tem oito anos! — Lussandra com um machado na mão, ameaçando-os, um deles quis se aproximar mas ela cortou a mãos irada e fora de sí, mas eles eram muitos, Eram oito contra uma mulher. Contra uma mae de cinquenta anos que estava fragilidade. Ela foi agredida em seguida por eles, de forma tao violenta, enquanto outro sem mao fugia de casa. A Fanua ouvindo os gritos da sua mae, correu ate a casa e logo foi até ao quarto do seu pai. Grião desceu pegou em duas catanas e desceu até a sala, ele apesar de estar embriagado ainda tinha forças, foi quando os homens se retiraram. Lacaio teve a ousadia de romper o casamento com a Marifa, afirmando que ele conseguia algo melhor.
— Lussandra... — Grião se aproxima da sua eposa que estava machucada no chao.
A Lussandra se levantou, foi ao encontra da Kilaila e da Baderinwa, regressou a casa com pequena no colo.
Grião olhou para sua filha de forma penosa, sentia-se culpado por não ter a protegido. Logo depois a Maarifa, chega à casa, vê a casa desarrumada e não entende o que aconteceu. Olha para os seu pai que estava devotado pelo sucedido. So pelo olhar dele, ela percebeu que algo de grave aconteceu.
— Onde estavas? Até está hora!— Grião gritou.
— Com amigas, eu disse que... — Marifa encarou-o supresa.
— Não chegaste de encontrares com o Lacaio, pois não? de te deitar com aquele homem?
— Não papa, ele não estava aqui contigo? Já decidiram quando e como sera o meu casamento e o lobolo...
— Não havera lobolo.— Grião afirmou.
— Mas porque? Eu...
— Lacaio cancelou o casamento, assim como nós não fazemos questão de o ter como família.
— Não entendo, o que houve? — Marifa implorou quase chorando.
— Lacaio estuprou a sua irma
— O que? Não, ele não faria isso
— Ele o fez... Não tem casamento.
Marffa deu passos para tras, não crendo e saiu correndo ate o seu quarto, se deparando com as outras a Fanua e Kilaila.
— É verdade, o Lacaio...
As duas acenaram positivamente a cabeça. Marifa se deitou na esteira, chorando em silencio por ter perdido o seu noivo, por seu sonho se desfazer em fracao de minutos. As pequenas podiam ver a magoa da dela.
Lussandra caminhou pela casa, com a pequena colo e ao passar do seu quarto viu a sua irma deitada na sua cama. As irmas entre olharam-se, podia se enxergar uma mae ferida e uma mulher satisfeita. Lussandra poderia expulsá-la, mas ela tinha a filha que precisava dela e foi a pequena quem ela deu prioridade. Levou-a ate o banheiro, ordenou que a Fanua preparasse um balde agua morna, enquanto ela tirava os trapos de pano que um dia foi um vestido da Baderinwa. Via o olhar triste da sua pequena, acompanhado de hematomas espelhados pelo corpo tao pequeno.
— Doi mama... — Baderinwa se encolheu quando foi tocada na pele, pelas mãos suaves da sua mae.
— Eu sei, eu sinto muito minha pequena... Sinto muito.
Logo mais a Fanua entrou com o balde de agua e deixou ao seu lado e logo se retirou, não suportando ver o estado da sua irmã.
— mama tem que dar banho, deixas-me
— Doi
— eu sei, mas precisas estar limpa! Vou ter cuidado...
Baderinwa acenou positivamente a cabeça, aceitando que a ela fosse tocada mais uma vez, deixando que a agua passasse no corpo de criança.
— Mama...
— Diz filha...
— Todas vocês fizeram isto que eu fiz...— Baderinwa olhou para a sua mãe. — As minhas irmãs tambem fizeram o que eu fiz, elas sangraram muito... Doeu muito como eu... Por que vocês não me falaram que um dia eu teria que fazer isso...
Lussandra soltou lagrimas, sem saber o que responder.
— O que eu fiz
— Tu não fizeste nada filha...
—Então porque eles me machucaram... Eles puseram aquela coisa em mim, eles... Aquilo doi, eu não quero fazer mais
Lussandra com dedo polegar calou-a, não suportando a situação que a sua filha estava.
— Tu nunca mais vais passar por isso de novo, nunca mais! Eu prometo!
— Eles disseram que foi assim que eu nasci...
— O que eles fizeram contigo foi maldade!
— Entao se eles foram maus, eles vao ser castigados? Aqui na aldeia quando é ma, tem castigo
Lussandra, ficou em silencio. Ela sabia que nada fariam aos criminosos, pois no seu tempo o estupro sempre era a culpa da mulher. Ela continuou dando banho a Baderinwa, tentando entrete-la com outros assuntos, apesar de saber que não adiantaria de nada. Tentava apagar a crueldade da memoria da sua filha, que fora estuprada e torturada com tamanha brutalidade. Nessa noite uma crianca, como muitas no mundo fora vitima de estupro e o criminoso ficou impune.
A promessa
Manha seguinte
Oito horas da manha, Lussadra e o Grião estavam na sala sentados na cadeira, pensando no que fariam em diante. Havia um olhar triste na Lussandra. Ela pensou em expulsar o Grião, ficar om as suas filhas, mas ela fora ensinada desde crianca que o casamento é o ato mais sagrado do mundo. Que mae solteira é uma vergonha para sociedade e para a família, que a honra estava acima de tudo. Que não importa a maldade que a Baderinwa sofreu, ninguem podia saber, pois a pequena estaria manchada para sempre com risco de nunca se casar. Grião estava ao lado da Lussandra, quis tocá-la mas ela se afastou,
— Quando a nossa filha estava sendo violentada, onde estavas tu para defende
— Bem, eu... Eu não escutei, como viste estava bebado.
— Tao bebado que ao escutaste os pedido de socorro dela...
— Lussandra...
— Eu não quero mais a Kucaia aqui, ela nunca mais vai por pes aqui
— O que a Kucaia tem haver com isso?
— Tudo! Não sou i****a Grião, me traires eu suporto eu ignoro, mas traires a nossa filha, não!
Neste instante, Maarifa, chega à casa pois ela havia saido logo cedo, queria escutar da boca do Lacaio o que ele havia feito. Olha para os seus pais que estão sentados no cadeira.
— Onde estavas?
— Com Lacaio
— Não posso crer que foste ter com esse miseravel
— Precisava escutar dele, ouvir a versao dele. — Marifa respirou fundo de cabeça erguida.— Ele pede desculpas! Ele ainda quer me casar
— Ainda pensas em casar com ele depois de tudo? Ele estuprou a sua irmã.~´
— Ah mãe, todo mundo sabe que depois de ela nasceu tudo virou de cabeça abaixo!
— Ela é sua irmã!
— Ela é uma feiticeira! Ela deve ter enfeitiçado os amigos do pai e o meu noivo!
Lussandra sem pensar lançou à mão no rosto de Maarifa, só se deu conta do que havia feito quando viu ela no chão.
— Ela é uma menina de oito anos, que foi violentada!
— Mas Lussandra, vendo bem talvez seja melhor entregar a Maarifa ao Lacaio! Nossa família já stava falada...— Comentou Grião.
Lussandra ficou em silencio.
— Vou me casar com Lacaio por bem ou por m*l! Eu não sou tão bela, ninguém irá me casar.
Baderinwa do seu quarto conseguia ouvir a discussão e de algo ela tinha a certeza, sua casa não era mais o seu lar. Era como se ela estivesse num lugar que não lhe pertencesse, ela só tinha ódio, medo, vingança e raiva no seu coração. Lembrou-se de tudo que sua mãe havia dito, a menina acreditava em karma... Acreditava em castigo e maldição, já que muitos diziam que ela era uma feiticeira e filha do demônio, decidiu agir como tal. Olhou para as suas mãos que as mesmas, manchavam a sua família de vergonha e para sempre a marca dos olhos estariam cravados nela, a não ser que ela cortasse as mãos. Deixou que a sua ira prevalecer, que o seu Coração de menina se alimentasse do ódio e fechou os olhos, durante dez segundos e quando os abriu seu dom renasceu.
“Com as minhas mãos, condeno todos os homens que provarem da minha carne a morte. Cada segundo meu será sua pena, cada lágrima minha será sua dor, cada lembrança naquela noite será a sua angústia e meu sorriso será a sua morte”
Baderinwa fez a sua maldição sem fechar os olhos, seu corpo estava frio e magoado. Ela não outra forma de se proteger ou de sarar a sua dor, então ela escolheu usar o seu poder ao seu favor sem pensar nas consequências. Seu coração estava magoado demais para misericórdia.